Daily Archives: 2 de December de 2015

Tem Leão na área

E ele está com fome! De olho no aumento da arrecadação, o governo está próximo de aprovar mudanças no cálculo e na alíquota de imposto dos Juros sobre o Capital Próprio. Saiba o que muda no investimento em ações
No próximo dia 17 de dezembro, os acionistas do Bradesco precisarão referendar o aumento de capital de R$ 3 bilhões, proposto pelo Conselho de Administração do banco, com a emissão de quase 165 milhões de novas ações, o que vai elevar a saúde financeira da instituição para R$ 43,1 bilhões. A intenção é melhorar o caixa para eventuais novas oportunidades de aquisição e permitir investimentos em modernização das instalações. Para a subscrição dessa operação, a instituição financeira fará um pagamento complementar de Juros sobre o Capital Próprio (JCP) de R$ 4,05 bilhões.

O montante é quase 45 vezes o JCP pago mensalmente pelo Bradesco aos seus acionistas e esse crédito poderá ser utilizado por eles para a subscrição das novas ações — o total de remuneração extra do banco será de cerca de R$ 6 bilhões, neste ano. Como as operações do Bradesco só vão se concretizar em janeiro de 2016, os cálculos do JCP podem mudar até lá e interferir na subscrição de ações do banco. Isso porque o governo quer aprovar ainda neste ano uma mudança de cálculo no JCP e na alíquota de imposto de renda para a pessoa física.

A intenção é contar, já no próximo ano, com um aumento de arrecadação. Como o instrumento é utilizado para substituir o pagamento de lucros e dividendos pelas empresas, pois permite ganhos fiscais – ele é lançado como despesa financeira na apuração do imposto de renda (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) –, a intenção é diminuir esse benefício. Segundo cálculos do governo, há uma perda fiscal estimada de R$ 10 bilhões anuais com essa operação. “O governo quer aumentar a arrecadação de todas as formas, e o ajuste fiscal vem do aumento de receitas e não corte de despesas”, diz Carlos Eduardo de Oliveira, presidente da Lecca Financeira.

“Mexer no JCP é mais fácil e atinge um número menor de pessoas do que a volta da CPMF.” Pelas regras atuais, o pagamento do JCP pode gerar uma economia líquida de, aproximadamente, 19% sobre o valor pago aos acionistas. A intenção é reduzir o ganho para 16%, o que permitiria uma receita de R$ 2 bilhões para o governo. As alterações começarão pela dedutibilidade das contas do patrimônio líquido, utilizado como cálculo base para o JCP. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje em 7% ao ano, será trocada por uma fixa de 5%. Com o resultado, os acionistas pagarão 18% de imposto de renda e não mais 16%.

A perda é considerável. Num exemplo hipotético elaborado com uma empresa de patrimônio líquido de R$ 100 mil, os acionistas receberiam R$ 800 de JCP, com as novas regras, em vez de R$ 1.300 (veja quadro). “Diversas empresas, de capital aberto e fechado, adotam o JCP como planejamento tributário”, afirma Martina Robinson de Azevedo, especialista em direito tributário da Pactum Consultoria Empresarial. “As mudanças, se elas acontecerem, não vão acabar com as vantagens, mas reduzirão a remuneração dos acionistas.”

No início deste ano, a especulação era que o Ministério da Fazenda pediria a extinção do JCP. Mas houve um aumento de 15% para 20% da CSLL dos bancos, que vai incrementar em R$ 4 bilhões as contas do governo, o que encaminhou o JCP para as alterações no cálculo e a redução dos benefícios. Os maiores prejudicados com essas alterações são empresas que pagam muitos dividendos. Além de Bradesco, Itaú Unibanco e da maioria das empresas ligadas ao setor financeiro, Ambev, Petrobras e Vale perderão atrativos para o investidor. Cálculos de analistas prevêem redução média de 7% no preço das ações, caso o novo JCP seja aprovado.

Fonte: ISTOÉ.